A saúde mental deixou de ser um tema periférico na gestão de pessoas. O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025, o maior volume da década, impulsionados por fatores diretamente ligados à organização do trabalho, como jornada, metas, sobrecarga, assédio e burnout.
Nesse cenário, os riscos psicossociais, antes tratados apenas como uma questão de bem-estar, se tornaram uma exigência legal e estratégica para qualquer organização que queira manter equipes saudáveis e evitar passivos trabalhistas.
Entender o que são esses riscos e como identificá-los na rotina de trabalho é o primeiro passo para transformar a exigência regulatória em vantagem competitiva. Este artigo explica o conceito, mostra por que o tema ganhou urgência com a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) e apresenta caminhos práticos para mapear esses fatores antes que eles se traduzam em afastamento, rotatividade e queda de desempenho.
O que são riscos psicossociais no trabalho
Para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), riscos psicossociais são os perigos decorrentes de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho, capazes de gerar efeitos na saúde do trabalhador em nível psicológico, físico e social.
Na prática, isso inclui fatores como sobrecarga ou subcarga de trabalho, assédio de qualquer natureza, falta de autonomia, baixo reconhecimento, comunicação deficiente, má gestão de mudanças organizacionais, isolamento no trabalho remoto e exposição a eventos traumáticos. Diferentemente dos riscos físicos ou químicos, esses fatores não deixam marcas visíveis, mas seus efeitos aparecem em indicadores como absenteísmo, rotatividade e queda de produtividade.

NR-1 e a nova exigência regulatória para as empresas
A atualização da NR-1, formalizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024, tornou obrigatória a inclusão explícita dos fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) de toda empresa.
Isso significa identificar os perigos, avaliar severidade e probabilidade, implementar medidas de prevenção com cronograma e responsáveis definidos, e documentar todo o processo, com participação ativa dos trabalhadores.
A nova redação da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026. Após um período inicial de 90 dias com fiscalização prioritariamente orientativa, as empresas podem ser autuadas em caso de descumprimento das exigências. Ainda assim, empresas que adiarem a adequação correm o risco de autuações assim que o período de orientação terminar. As exigências completas estão detalhadas em nosso artigo sobre a Lei de Saúde Mental no Trabalho e a NR-1.
O custo invisível: o que os dados revelam sobre afastamentos
Entre 2022 e 2024, o número de benefícios por incapacidade temporária concedidos por transtornos mentais e comportamentais no Brasil saltou de 201 mil para 472 mil, um aumento de 134% em dois anos.
Reações ao estresse, ansiedade e episódios depressivos concentram a maior parte desses afastamentos. No cenário global, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que fatores psicossociais relacionados ao trabalho respondem por mais de 840 mil mortes anuais associadas a doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Para o RH, esses números viram custo direto: mais afastamento e mais dificuldade para reter talentos.
Como identificar riscos psicossociais na rotina da empresa
Mapear esses riscos exige ir além da percepção individual de gestores e observar indicadores objetivos ao longo do tempo. Entre os sinais mais comuns estão:
- aumento de atestados e afastamentos de curta duração;
- queda perceptível de produtividade e engajamento em equipes específicas;
- alta rotatividade concentrada em determinados setores ou lideranças;
- relatos recorrentes de sobrecarga, prazos irreais ou conflitos interpessoais;
- baixa participação em pesquisas de clima organizacional.
Cruzar esses dados com entrevistas, canais de escuta confidenciais e a Avaliação Ergonômica Preliminar exigida pelo GRO ajuda a transformar percepção em diagnóstico documentado, exatamente o que a NR-1 passa a exigir de cada empresa.
Prevenção contínua: o papel do cuidado em saúde como estratégia
Identificar riscos psicossociais é apenas o começo. A prevenção eficaz depende de acesso rápido a suporte em saúde mental, o que reduz o tempo entre o primeiro sinal de sofrimento e o cuidado efetivo. Plataformas de telemedicina cumprem esse papel ao aproximar o colaborador de profissionais de saúde, como detalhamos em telemedicina e a redução de afastamentos em tempos de NR-1.
Para empresas que buscam estruturar esse cuidado de forma contínua, o Wehealthy reúne telemedicina e acompanhamento de saúde corporativa em uma única plataforma, ajudando o RH a transformar a exigência da NR-1 em um programa real de prevenção, não apenas em mais um documento arquivado no PGR.
Conclusão
Os riscos psicossociais deixaram de ser um tema de bastidores para ocupar o centro da gestão de pessoas e da conformidade regulatória. Empresas que tratam o mapeamento desses fatores como rotina, e não como resposta a uma fiscalização, chegam na frente tanto na retenção de talentos quanto na redução de custos com afastamento. O momento de agir é antes que o período educativo da NR-1 se encerre.



